O Plano e a Tenda

Transposta de uma Igreja de carácter neoclássico para uma igreja modernista, “O Plano e a Tenda” concebe uma exposição como forma de transitividade enquanto processo de deslocação entre diferentes contextos.
        Através de um conjunto de dispositivos, reinterpretações de mobiliário e elementos da iconografia religiosa, exploram-se as tensões entre valor cultural e valor expositivo, permanência e mobilidade, função e contemplação.
        Estruturada como um conjunto de relações abertas entre objetos em contínua adaptação, propõe uma leitura em constelação, onde a transcendência se confronta com o plano da imanência.

Habitar o Intervalo

«Como são insondáveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos.» (Rm 11,33)


Há caminhos que não podem ser previamente traçados. Não porque permaneçam ocultos, mas porque apenas adquirem forma no próprio ato de serem percorridos. O percurso não confirma uma ordem; produz relações. Entre orientação e desvio, repetição e diferença, desenha-se um território onde o sentido emerge da experiência e não da sua antecipação.
          O Plano e a Tenda apresenta um conjunto de trabalhos desenvolvidos por João Miguel Ramos no âmbito da investigação de doutoramento em Artes Plásticas dedicado ao conceito de Diagrama de Controle, entendido como ferramenta crítica e operativa para pensar a prática artística contemporânea.
         O plano, figura central da genealogia da Pintura, não designa aqui uma forma acabada, mas a condição onde as relações podem inscrever-se. A tenda, por sua vez, não representa apenas o provisório, mas uma estrutura cuja permanência depende da sua capacidade de transformação, de abrigo ou de ocultação, ou simplesmente como evidencia da mutação de um tecido plano em estrutura tridimensional. Longe de se oporem, ambos configuram um mesmo campo de possibilidades, onde estabilidade e deslocação, inscrição e adaptação coexistem como condições da experiência.
       É nesse intervalo que o diagrama opera. Não representa uma estrutura nem organiza uma composição; introduz uma perturbação que interrompe os automatismos da perceção e abre novas configurações entre matéria, gesto, imagem, objeto e contexto. Neste sentido, a pintura deixa de surgir como um meio delimitado para se afirmar como um campo operatório, capaz de se inscrever no objeto, na escultura, na instalação e na própria organização do espaço. Mais do que expandir um meio, trata-se de expandir um modo de pensar e produzir relações.
As obras reunidas na exposição desenvolvem-se a partir dessa condição diagramática. Mobiliário litúrgico, elementos da iconografia cristã, pinturas, imagens e objetos provenientes de outros contextos deixam de afirmar identidades estáveis para integrarem um campo de relações em permanente reconfiguração. Cada elemento altera a leitura dos restantes, fazendo emergir novas cartografias de sentido onde função e contemplação, memória e atualização, permanência e transformação permanecem em negociação.
      Instalada numa igreja em funcionamento, a exposição reconhece o espaço como parte ativa deste processo. A arquitetura, a liturgia e a experiência estética não se subordinam umas às outras nem procuram uma síntese conciliadora. Coexistem, interferem e condicionam-se mutuamente, produzindo um campo relacional onde o contexto deixa de ser enquadramento para se tornar matéria da própria experiência.
«Impenetráveis os seus caminhos.» Não porque conduzam a um significado oculto, mas porque cada relação transforma a cartografia das relações possíveis. Entre o plano e a tenda, entre aquilo que se inscreve e aquilo que permanece disponível para se reorganizar, a exposição encontra a sua forma de habitar. É nesse intervalo que o diagrama deixa de ser apenas um conceito para se tornar prática.


Domingos Loureiro

@redentoristas_porto
Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro
Rua Firmeza, 163, Porto

17.07 – 05.08.2026

Imagem: Elisa Vieira